Paula Freire
Estava no cabeleireiro folheando uma revista enquanto aguardava minha vez de cortar o cabelo. Detesto esperar no cabeleireiro, mas isso é, às vezes, inevitável. Então sou obrigada a ouvir os mais variados tipos de assuntos para boi dormir, ou se for um boi um pouco mais sensível que o comum para sua espécie, o boi poderá querer se suicidar.
Nessas horas procuro trancar meus ouvidos para não ser saraivada pelos mais estapafúrdios tipos de impropérios. Geralmente, coloco meu ipod num volume considerável e fico folheando alguma revista de conteúdo altamente instrutivo, aqueles tais, que sem os quais, a sociedade permanece tal e qual. Daí, quando olho para a cara das madames e vejo suas bocas se articulando, prefiro pensar que estão mascando um chiclete ou que estão fazendo uma ginástica facial para levantar um pouco as estruturas musculares, já desfalcadas de elastina e colágeno. E com isso, poupo minha mente e meus ouvidos de tanto entulho.
Mas essa tarde, como o salão estava vazio, acabei nem ligando o ipod. Eu havia terminado de conversar ao celular com uma amiga e tendo acabado de desligar, não pude deixar de ouvir duas senhoras parlamentando efusivamente. Creio que todos os leitores já devem ter ouvido, em alguma situação, esse tipo de papo. Duas senhoras de meia idade, que vivem um bem-sucedido casamento. Bem-sucedido na mais profunda acepção burguesa, patricarcal, neocolonial e escravocrata, obviamente! Elas estavam se queixando de suas empregadas domésticas. Ora, existe um assunto mais oportuno para uma esposa-mãe de família do que se queixar das empregadas domésticas? Sempre achei que as empregadas domésticas são as trabalhadoras mais heróicas deste país, pois, além de não terem os mesmos direitos dos demais empregados, ainda tem de conviver com um estigma escravagista que não lhes permite um status social melhor que o das mucamas de outrora. Além disso, têm de se sujeitar às mais inoportunas investidas de natureza sexual por parte dos patrões. E, ainda assim, são um dos assuntos favoritos nas rodas de madames e recheiam as conversas de cabeleireiros.
"A minha gastou uma garrafinha inteira de detergente numa tarde!" Disse uma das senhoras do adro de sua indignação.
"Ih, a minha me deixou na mão no dia das minhas bodas de pérola! Imagina: eu, com um monte de gente pra receber, organizando uma recepção na minha casa e aquela louca me deu o nó bem nesse dia! Quase fiquei maluca tendo que receber as pessoas e ao mesmo tempo servi-las. Não pude nem aproveitar as minhas bodas de pérola!"
Confesso que não sei o que se pode aproveitar numa festinha de bodas de pérola, mas tudo bem! Talvez o bolo... Certamente não o bolo dado pela empregada, claro!
A conversa foi caminhando para a conclusão que sempre se ouve quando as madames falam do tema "empregada doméstica": ruim com elas, pior sem elas!
Eu, sinceramente, após ouvir as enxurradas de esgoto mental que proferem essas criaturas nos salões de cabeleireiros, não consigo pensar em nada a não ser descarregar todo esse lixo de dentro do meu cérebro. Isso é um verdadeiro assalto, cujas únicas vítimas são meus neurônios e minha sanidade mental. A integridade física de meus neurônios corre um sério risco e minha mente fica a ponto de entrar em colapso! Isso deveria ser considerado uma emergência psiquiátrica! É como um assaltante, valendo-se da violência, lhe toma a bolsa ou a carteira, esse tipo de conversa invade seu cérebro, sem seu consentimento e lhe esvazia a sanidade. Poderia ser considerado um outro tipo de assalto! É como tentar atravessar um fogo cruzado. Você é alvejado porque estava no lugar errado e na hora errada. Quem sabe levam isso em consideração quando reformarem o Código Pena Brasileiro?
Mas nesse dia, devo confessar que não pude deixar de pensar no que eu havia ouvido. Fiquei tentando imaginar o mundo sem as empregadas domésticas. E por que elas seriam então um mal necessário.
Comecei então a tentar responder a grande questão: por que as faxineiras e empregadas domésticas são todas, ou quase todas, mulheres? Já ouvi falar que existem faxineiros homens, mas até o presente momento desta minha vã existência, nunca vi nenhum!
Penso que seria muito mais salutar que os homens compusessem, em sua maioria os quadros de faxineiros e empregados domésticos! Seria muito mais salutar para todos! A começar que o serviço doméstico é ontologicamente braçal, pois exige que se arrastem móveis, que se ergam coisas pesadas, que se esfreguem estruturas, etc. E, como os homens, fisiologicamente, têm mais força muscular, nada mais justo! Além do que não teriam tanto problema com o assédio sexual. Aliás, caso fossem assediados sexualmente por suas patroas, a depender da situação, seria mais uma vantagem para eles. E, obviamente para as patroas também. Creio que seria a apoteose para uma dona-de-casa ter alguém que deixe suas casas um brinco e que depois também brinquem com elas! Não seria maravilhoso? O faxineiro limpa a casa, tira toda a poeira, coloca tudo no lugar e depois tira as teias-de-aranha da dona? Uau! Isso é o que eu chamaria de uma verdadeira e profunda limpeza! Não haveria mais senhoras mal-comidas pelo patriarcado capitalista-burguês reclamando de suas domésticas nos salões de cabeleireiro do Brasil! Até nem precisariam ir tanto aos salões de beleza, pois nada como uma boa trepada para oxigenar a tez e repor o colágeno e a elastina consumidos no quotidiano feminino pelos maridos chauvinistas, por filhos tirâncos e mimados. Seria um ótimo lenitivo para suportar as tensões do dia-a-dia opressor da dócil e submissa mulher burguesa. E, sem dúvida, poderíamos dizer que os faxineiros sim, são um BEM necessário! E um gênero de primeira necessidade para toda mulher! E que, se as coisas estão ruins sem eles, certamente ficarão muuuuuuito melhor com eles! Eu contrataria uns três para se revesarem lá em casa!
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